Que os dias felizes sejam mais longos.
Clarice Lispector.   
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RIP Robin Williams 1951-2014
Novamente estava sozinha, sem ninguém para ver eu desabar em lágrimas. Como minha vida foi parar naquele estado? Eu estava quebrada, cortada, magoada, sozinha. Nesse momento comecei a pensar porque eu ainda estava ali, não ali naquele local, mas ali na terra, porque eu ainda estava viva, tudo o que eu queria era desaparecer dali para um lugar melhor. Mas ouvi dizer que os suicidas não vão para o céu. O lugar para mim seria o inferno? Porque, sinceramente, eu já estava vivendo um inferno. Cada dia que se passava que eu tinha que levantar da cama, eu sussurrava baixinho, “Deus por favor, se você tem um pingo de misericórdia por mim, não me deixe passar mais esse dia na terra”. E nada acontecia. Eu torcia para que quando eu estivesse atravessando a rua, um carro me atropelasse e eu morresse na hora, sem sentir dor, sem ver nada, sem sentir nada. Não seria minha culpa, e consequentemente eu iria para o céu. Será? Não imagino um lugar bom, onde não haja lágrimas rolando pelos meus olhos. Eu não aguento mais sofrer. E torcia para que algo acontecesse comigo assim que saia de casa, um acidente, isso, um acidente, onde a culpa não seria minha. Os cortes doiam, meu coração ainda mais, eu estava despedaçada no chão e ninguém vinha juntas meus pedaços. Eu estava destruída. Onde estão aqueles que me ajudavam? Onde? Se cansaram? Todos se cansam, até eu mesmo já estou cansada de mim. Certo dia ouvi “você está sem mal” ou “nunca te vi realmente bem.” As pessoas tem razão, eu nunca estive bem, mas antes eu conseguia disfarçar melhor. E agora, olhe para mim, eu sou um nada, eu não sinto nada, não sou útil pra nada. Que diabos eu ainda estou fazendo aqui? Porque eu ainda não cortei esse maldita veia no meu pulso? Sou tão covarde a ponto de não conseguir me matar? Eu mereço isso, mereço ir pro inferno e queimar lá. Tudo o que eu faço comigo mesmo não é justo, porque me machuco desse jeito? Porque eu existo? Porque sou esse nada ambulante que não faz diferença nenhuma na vida das pessoas? Porque sou tão inútil a ponto de não conseguir sequer me ajudar? Não consigo me levantar, estou no chão, no meio das minhas lágrimas, do meu sangue, do meu coração partido em um milhão de pedaços. Olhe para mim, quem amaria alguém assim? Quem amaria um monstro repleto de cortes e magoas que não consegue nem amar a si mesmo? É exatamente isso que eu sou, um monstro. Me olho no espelho e não me reconheço. No que me tornei? Não como, não durmo, me corto. Ninguém vê que preciso de ajuda? Ninguém escuta meus gritos? Talvez eu tenha perdido todo meu fôlego enquanto gritava sozinha, enquanto sozinha encolhida no canto do banheiro eu chorava e com a lâmina em mãos me cortava, mais fundo, mais fundo, eu precisava daquela dor. Depois a culpa, a comida, o vômito, os dias e horas sem comer. A magreza, a doença, os desmaios, as crises, os calmantes, os remédios, e mais remédios. Estou dopada de remédios e não sinto mais meu corpo. Não me sinto mais, não sou mais nada, me tranformei em uma pessoa que nem eu mesma reconheço. O que as outras pessoas pensam de mim? Que sou louca? Até eu mesma penso isso, e talvez eu seja, o problema é que ninguém consegue entender essa loucura, ninguém é capaz de tentar entender porque eu sou desse jeito, porque me machuco, me queimo, me bato, e porque quero morrer. Eu quero ir embora daqui, mas algo me prende, não sei exatamente o que, mas me sinto acorrentada a algo que não me deixa ir embora daqui, eu preciso ir, preciso mesmo, não sei mais quanto tempo irei aguentar. Eu deveria tomar um vidro de remédios e esperar a morte vir, seria uma forma simples e as pessoas que achassem o meu corpo não teriam o trabalho de limpar meu sangue esparramado pelo chão. Eu não sei para onde ir, de repente, alguém interrompe os meus pensamentos, estava tão distraída, que nem percebi chegar.
- Você está bem?
Não havia resposta, apenas minha respiração ofegante, minhas lágrimas correndo pelo rosto, ele não entendia porque eu estava assim, e nem deveria entender, nem deveria saber, eu não conhecia ele, e como me achou aqui? Estou aqui no meio das árvores a metros da escola, como alguém veio até aqui e me encontrou? Não era para isso acontecer, era pra eu estar sozinha, chorando, e planejando meu suicídio, quietinha, no meu canto, sem ninguém, para tentar impedir.
- Você está bem?
Novamente a voz dele me despertou dos meus devaneios. Respirei fundo e criei coragem para falar.
- N-não.
Minha voz falhou. Droga, eu estou chorando como nunca chorei antes e ele ainda me pergunta se eu estou bem? Não é meio óbvio? Está estampado no meu rosto que eu não estou bem, eu nunca estive, eu deveria esconder melhor. Mas na verdade foi ele quem me encontrou.
- Como é seu nome?
Novamente desperto.
- Julia, e o seu? – minha voz sai entrecortada.
- Lucas, posso saber porque você está chorando tanto?
Pensei bem na resposta que daria.
- Hum, não seria saudável para você saber.
- Mas eu quero saber, você está muito triste, certo? Não quer desabafar?
- Lucas, sou uma estranha que você nem sabia o nome a cinco minutos atrás, porque confiaria em você para contar sobre a minha vida?
- Nossa, você realmente está muito mal, quer ir em outro lugar?
- Não, vou ficar aqui, preciso pensar.
- Pensar em que?
- Não te interessa, para de tentar se intrometer no que ninguém te chamou.
- Só estou tentando ajudar.
- Não tem como me ajudar, sou um caso perdido.
- Ninguém é um caso perdido, só não teve o acaso certo.
- Nossa, vai dar uma de filósofo pra mim? Pode ir parando por ai, não estou com cabeça pra lição de moral.
- Não é lição de moral, só queria saber o que você está pensando, eu realmente queria saber. – ele sorri.
- Eu te assustaria. – falei baixinho.
- Não, garanto que não, o que seria tão horrível a ponto de eu me assustar?
Pensei muito, e na verdade eu queria assusta-lo para ele sair dali e me deixar em paz. Ergui a manga do casaco e mostrei meus cortes. Para minha surpresa ele não ficou nem um pouco assustado, seu olhar estava impassível, e era impossível saber o que ele estava pensando.
- Isso não me assusta.
- Você não é normal.
- Sou sim, e você também é.
Ele ergueu a manga do casaco dele e seu braço era repleto de cicatrizes. Não consegui esconder meu espanto.
- Eu te entendo.
- Eu não me entendo.
- Isso não é algo anormal, relaxa, e você é uma menina linda, não precisa disso.
- Desculpa, mas você fazia também, então não pode me julgar.
- Não estou te julgando, pelo contrário, assim como eu parei, quero que você pare, e vou fazer qualquer coisa para que você pare com isso, qualquer coisa mesmo.
- Você não precisa, e vai desistir fácil, sou uma pessoa muito difícil de lidar, não consigo aceitar ajuda de ninguém, estou nessa a três anos.
- E não acha que já esta na hora de parar?
- Acho, sempre achei, mas nunca parei.
- Eu vou te fazer parar.
- Não vai mesmo, ninguém nunca conseguiu.
- Eu vou conseguir, acredite em mim.
- Se você diz.
- Você não acredita mas eu vou, agora vamos sair daqui, esse lugar não é legal e eu quero saber tudo o que você estava pensando antes de eu chegar aqui.
- Ok.
Saímos e fomos para longe dali, logo a escola estava atrás de nós e não consegui não perguntar.
- Aonde vamos?
- A praia.
- Eu nunca vou a praia.
- Eu sei exatamente o porque.
- Eu sei. –baixei os olhos.
- Não fique assim, eu também não venho muito a praia.
- Tudo bem.
Continuamos o caminho até a praia, minhas mãos suavam, meu coração estava disparado, eu só queria ir pra casa, me cortar e esquecer de tudo, mas ele estava ali, tentando me ajudar, eu deveria dar ao menos uma chance. Continuei tentando ignorar meus pensamentos. Chegamos, eram quase seis da tarde, o sol acabava de se por, o vento era frio, fechei meu casaco e ele fez o mesmo.
- Tire os sapatos.
- Você está maluco?
- Vamos, faça o que eu peço.
Tirei, estava muito frio. Ele tirou também, fiquei imaginando o que viria a seguir.
- Vamos.
Ele disse e pegou minha mão, ele estava me levando para o mar, quando a água encostou nos meus pés dei um grito que o fez rir.
- Está frio, mas daqui a pouco você acostuma.
- Difícil hein! – sorri também.
Eu me sentia bem com ele, ele me puxava pela mão e me levava do inicio das ondas até a beirada e começou a pegar conchinhas pelo chão. Aquilo era tão simples, mas me fazia tão bem. E comecei a pensar que se de alguma forma aquele garoto, que a poucas horas eu nem sequer sabia nome, poderia me ajudar. No primeiro teste ele passou, conseguiu me fazer sorrir. Mas e o resto? Quando a coisa apertasse e eu ligasse pra ele desesperada porque meus cortes não paravam de sangrar? O que ele faria? Não sabia, mas resolvi arriscar, sim ali mesmo decidi me arriscar.
- Olha vou falar o que eu estava pensando lá.
- Ótimo, nem precisei pedir. – ele sorri, o sorriso mais lindo que já vi.
- Estava planejando meu suicídio.
- Ainda bem que ficou só nos planos. – ele sorriu de novo, e eu sorri também.
- É, mas não sei por quanto tempo.
- Enquanto eu estiver aqui vai ficar só nos planos.
Suspirei, não sabia o que falar, ele segurava forte a minha mão.
- Você deve achar que são falsas promessas, mas eu nunca quis ajudar tanto alguém assim.
- Isso é bom?
- Ótimo, pois quer dizer que vou me empenhar muito para te ver sem cortes e com um sorriso sincero no rosto.
- Faz muito tempo que não sorrio.
- Antes você sorriu.
- Digo, sinceramente um sorriso.
- Entendi, mas seu sorriso será sincero, eu te garanto.
- Tudo bem. – dei de ombros.
Ele não soltou minha mão, e estava ficando mais frio.
- Acho melhor eu te levar para casa.
- Também acho. – concordei.
Colocamos os sapatos e saímos da praia, ele não soltava minha mão.
- Porque você não largou minha mão?
- Porque não quero que você vá embora, tenho medo de te perder.
- Eu vou apenas pra casa, amanhã nos veremos de novo, não será uma despedida definitiva.
- Não quero que seja uma despedida.
- Que tal um até logo?
- Pode ser, mas você terá que prometer uma coisa.
- Minhas promessas nunca são compridas, mas vai lá.
- Não se corte hoje.
- Vou tentar.
- Isso já é um começo.
- É.
Chegamos em minha casa, ele me abraçou, e desabei em lágrimas, eu não esperava um abraço dele, não naquele momento, chorei e em meio aos soluços ele olhou para mim e disse.
- Eu vou cuidar de você, prometo.
Não disse nada, ele me deu um beijo no rosto e eu entrei aos prantos em casa. Minha mãe não estava em casa. Senti um aperto no peito. Eu não conseguiria, eu estava sozinha novamente, os pensamentos me tomavam outra vez, morte, cortes, eu não sei se aguentaria. Minha cabeça estava pesada, eu estava confusa, sem vontade de nada, mas resolvi tomar um banho. Peguei a roupa e a toalha e fui para o banheiro. Aos prantos, deixei as lágrimas se misturarem com a água do chuveiro, tentando lavar a alma, e nada.
Eu estava cada vez pior, e a dor aumentava, meu peito doía, não era somente o emocional, era o físico que doía também, e era uma dor muito forte. Eu gritava, ninguém ouvia. Estava na esperança que alguém escutasse meus gritos e soubesse o que eu estava prestes a fazer, mas ninguém ouvia. Eu ia fazer isso, ia mesmo, sem medo, eu faria. Sai do banho, me vesti e fui para o quarto, liguei o computador e comecei a escrever uma carta de despedida. A maior parte da carta eu falava sobre o Lucas e para o Lucas, Eu estava decidida. Terminei a carta e apertei em “imprimir”. Logo a carta saiu da impressora e a coloquei em cima da cama. Fui para o armário de remédios e procurei por cinco, especificamente calmantes fortes. Misturei todos e tomei de uma vez só. Meu corpo adormeceu, mas eu ainda tinha algo para fazer, peguei a navalha e cortei meu pulso o mais forte que consegui, peguei o celular, ensanguentado e escreve “salve-me” e apertei em enviar para o Lucas. Depois disso não lembro de mais nada, só de uma enfermeira em minha frente e Lucas ao lado dela. Meu corpo estava dormente e estava com soro no braço direito que estava com um curativo. Não entendia nada, apenas olhei para Lucas e ele me disse baixinho:
- Eu disse quem sempre cuidaria de você.
E cai num sono profundo e eterno.
Diário de uma auto-mutiladora. 
outonismo:

Mateus William